Ser prestativo e sempre disponível pode parecer uma virtude, mas até que ponto essa constante busca por agradar se torna um problema? No quadro ‘Sobre Nós’, do Fantástico, Felca explora a dificuldade que algumas pessoas têm em dizer ‘não’. A investigação busca entender quando a gentileza se transforma em sofrimento, tanto para quem cede constantemente quanto para suas relações.
Felca compartilha uma experiência pessoal para ilustrar essa questão: “Esses dias aconteceu uma coisa muito estranha comigo. Eu estava na casa de um amigo e ele me ofereceu um bolo que tinha na geladeira. Eu disse sim, mesmo não estando com vontade nenhuma. Por que eu disse que queria, sendo que não queria?”.
De acordo com o psiquiatra e psicanalista Álvaro Ancona, essa dificuldade está intrinsecamente ligada ao desejo de aceitação. “Todo mundo quer ser bem quisto, quer ser querido. E, às vezes, a gente aprende a se relacionar achando que ser querido é sinônimo de não dizer ‘não’ para ninguém. Muitas vezes, só percebemos isso quando pensamos: ‘eu não consigo negar nada’”, explica o especialista. Ele também aponta que essa dificuldade pode se manifestar em diferentes momentos da vida ou em contextos específicos, como no trabalho, em interações sociais ou em relacionamentos amorosos.
O psicanalista ressalta a importância de identificar os próprios desejos para construir uma vida autêntica. “O problema é que, se eu não consigo identificar o meu desejo, mas apenas o dos outros, vou agir de acordo com isso. E aí não consigo construir uma vida baseada no que eu quero, porque nem sei ao certo o que quero”, afirma Ancona.
Felca relata que essa dificuldade em negar pedidos o levou a perder o controle sobre sua própria rotina. “Teve um momento em que eu percebi que estava sem controle da minha vida. Quando chegava em casa, no tempo que seria para mim, eu precisava resolver pendências que aceitei no passado. Eu tinha que atender expectativas que eu mesmo criei”, conta.
Segundo Ancona, esse padrão de comportamento pode ser extremamente desgastante. “Funcionar assim dá muito trabalho. A pessoa passa o tempo inteiro tentando corresponder às expectativas dos outros, e isso acaba parecendo natural. Ela vira ‘o amigo que faz tudo’”, explica. O psiquiatra enfatiza que estabelecer limites não é sinônimo de egoísmo ou frieza. “Dizer ‘não’ não é ser egoísta. Egoísta é quem nunca pensa no outro. O equilíbrio está em entender que, às vezes, a resposta será ‘sim’ e, em outras, ‘não’. Não dá para aceitar tudo o que pedem”, completa.
Ancona recomenda a prática gradual de novas formas de comportamento. “Muitas vezes, quando começamos a dizer ‘não’, percebemos que não é tão terrível quanto imaginávamos. As pessoas, em geral, não reagem de forma tão negativa”, conclui.
Para quem deseja se aprofundar no tema, o podcast do Fantástico convidou o psiquiatra Luiz Alberto Retten, autor do livro “Diga não, estabeleça e defenda seus limites”. O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes com a profundidade e o jornalismo do Fantástico.

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